quinta-feira, 4 de junho de 2015

Resumo de Campanha S1 #1 - Azira, Meihëm e Os Caçadores de Dragão

    Salve! Devido à falta de tempo e grande quantidade de sessões, acabei por perder o ritmo de registro das aventuras. Para não deixar incompleta e em aberto, resumirei brevemente o que ocorreu desde a libertação de Rafiki, até o fim da campanha.
    Os personagens são a elfa ladina Laurana (Julia), a senhorita discórdia, que sempre pensa em si mesma antes de qualquer coisa; o elfo monge Gadeus (Neto), o mais comedido do grupo, com a pior mão de todos (haja falha crítica); o bárbaro meio orc Ugo (Caio), que apesar de ser o louco do grupo, algumas vezes põe os óculos da sabedoria e vira o conselheiro; o feiticeiro meio anjo Kaly (Eddie), que tem um código dos heróis, mas sempre acha brecha pra fazer coisas erradas (os Deuses estão vendo); a paladina draconato Brianna (Marcela), que definitivamente deixaria você morrer só pra dar mais uma machadada no inimigo; e o arcanista  milenar Rafiki (Arthur), também conhecido por sua arte de tortura física e psicológica (você ainda tem dezoito dedos...).

   Parte 1 - Murdock, O Grande B e O Passado de Ugo

 
   Após uma missão cheia de altos e baixos, com um novo membro no grupo, os companheiros resolvem tirar uma folga e encher a cara. O álcool no sangue os leva à embriaguez, que gera problemas civis e o aprisionamento dos personagens.
   Ugo é raptado por dois homens, Murdock e Grande B, um cavaleiro loiro de armadura negra e um gigante ruivo, vestido como um selvagem.
   Os dois usam de um ritual e revelam o passado esquecido de Ugo, que havia sido criado pelo Rei dos Dragões Vermelhos, Vermillion. Os dois estão atrás de um Orbe, mas Ugo não consegue lhes informar a localização. Os dois partem então para a vila onde o meio-orc viveu quando criança, ameaçando matar todas as sacerdotisas da ordem que a mãe de Ugo pertencia, até descobrir a localização do Orbe.

   Após algumas desventuras, o grupo se liberta da prisão, sai de Roarc e prossegue por algumas semanas atrás do rastro frio de Azira, sabendo que haveriam de apressar sua jornada para o norte, de modo a impedir Murdock e seu companheiro.
    O grupo encontra Azira em sua torre, no centro do jardim de cristal, confrontando-a. No combate, Gadeus entra em fúria ao ser provocado, mas Azira se mostra mais forte do que esperavam, derrotando-os todos de forma humilhante.
    Ela se retira após derrotá-los, deixando-os para morrer com o colapso da torre. Neste momento, Alada, a Carta do Voo, acorda e abençoa os companheiros com asas mágicas, com as quais eles se salvam do fim certo.

   Ainda com asas, os companheiros voam para o norte, ultrapassando Murdock - montando em seu corcel das trevas -  e Grande B - montado num imenso cervo negro, um dos imensos Imbus de Khalifor.
   Os companheiros pousam pouco ao sul do Rio do Sol e caminham até o leito do rio, onde encontram refugiados e feridos. Atendendo aos pedidos de socorro, o grupo vai de encontro a um forte de uma patrulha cruel, se infiltra com as armaduras de um grupo de soldados, liberta os prisioneiros e confronta seu líder.
    Kaly demonstra seu imenso poder mágico, criando uma curta nevasca, enquanto Gadeus pilota um galeão, salvando todos os prisioneiros. Entre estes, muitos elfos adoecidos pela praga lançada sobre a raça.

  Parte 2 - Belar, Seisrios e a Morte de Azira

   Perseguidos por soldados, o grupo aporta numa vila, dando combate a uma legião. Nesse momento, após Gadeus ser atingido por um relâmpago fatal, Belar (Luis) - um paladino anão, comprometido com a justiça - cura o elfo monge, juntando-se aos companheiros para vencer a batalha.

   A vila agradece aos seus heróis, prometendo criar uma estátua em sua glória e, após se recuperar brevemente, deixando o galeão para ser vendido pelos aldeões, o grupo toma um dos barcos menores e avança pelo pântano de Seisrios, no rastro de Murdock e Grande B.

   No centro dos pântanos enevoados, num templo abandonado e macabro, o grupo volta a confrontar Azira, que fazia um ritual para reviver um indivíduo de um caixão de pedra.
   Após uma batalha acirrada, com muitos momentos tensos e a quase morte de alguns personagens, Gadeus mata Azira com uma sequência cruel de socos no rosto, ainda que ela implorasse por misericórdia.

   A viagem corrida os leva para fora de Seisrios, adentrando no reino de Gunheim. Lá, aportando em Cailin, o grupo toma alguns dias para realizar missões, conseguir dinheiro e comprar mantimentos para prosseguir para o norte.
   Numa destas missões, acabam por descobrir que um dos arcanistas do ritual do Reloah havia vendido seus companheiros, retornando do Abismo. Era Redhu, agora autodenominado Valkir. Enganados por este, o grupo liberta Valkir, que revela a verdade terrível sobre Rafiki: a chave para libertar Astaroth de sua prisão ficou presa na alma do arcanista.

    Parte 3 - Meihëm

   Após mais alguns longos dias de viagem depois, o grupo novamente ultrapassa a dupla de caçadores, usando dos poderes de Alada, alcançando antes destes a Torre de Manä, também chamada de Torre da Verdade, onde as sacerdotisas da verdade criaram Ugo.
    Dentro da Torre, o grupo é posto frente a frente com as consequências de suas ações. Gadeus descobre que Azira esteve desde sempre influenciada por Reloah e que - no tempo da morte de Elthrandir - a feiticeira estava grávida. Sua filha, Ellarya, foi criada por Reloah para se tornar uma caçadora impetuosa e sarcástica, fiel apenas ao próprio.
    No fim, um evento místico ocorre, jogando-os numa outra dimensão, completamente escura.

   Nesta terra de trevas, o grupo passa por terríveis situações, acabando por encontrar um templo escondido dentro de uma montanha, dentro do qual jaz adormecido uma entidade humanoide de proporções imensas, que parece distorcer o espaço em volta de si.
   O ser emite luminosidade e esplendor. Ao tocá-lo, alguns dos companheiros sofrem de uma descarga de conhecimento, assistindo a criação do mundo decorrer em sua mente.
    Belar, resistindo à intensidade da revelação, entende que se trata de um deus e trata com o ser. Este se apresenta como Meihëm, um dos membros da Raça de Ouro, que havia escolhido aquele lugar para descansar após criar o Universo.
    O Deus examina a dimensão, concluindo que seus enviados, a Raça de Prata, havia erguido um casulo para impedi-lo de perceber o passar do tempo, "fechando as cortinas" do espaço em sua volta. Belar, após tal iluminação divina, se converte ao Verdadeiro Deus, e este os liberta da prisão dimensional.
    No entanto, Laurana (cuja jogadora, Julia, se mudou para outro estado), ficou na dimensão escura e fria, abandonada pelos amigos, que não a encontraram.

   Parte 4 - Confronto!

    Do lado de fora, Ugo recebe da Sumo-sacerdotisa o Orbe dos Dragões Vermelhos, deixado com ela pelo próprio Vermillion. Assim, os companheiros saem da torre, indo até a fronteira para confrontar definitivamente os caçadores de dragão.
    A batalha acirrada revela o alto nível dos adversários. Iorek Barnisson, o gigante ruivo, acaba por se transformar num imenso urso, demonstrando ser uma espécie de licantropo. Murdock, um cavaleiro com poderes das trevas, deixa Ugo à beira da morte antes de ser vencido.

    O golpe final no urso é dado por Belar, que clama à Meihëm por força para vencer. O golpe lança uma luz poderosa sobre o selvagem, que é julgado e iluminado pelo Deus Verdadeiro. Ajoelhando-se diante do anão paladino, o homem ruivo agradece pela paz que encontrou junto à Meihëm, sem dar detalhes de que terrível agonia havia sido dissipada pela iluminação.
    O grupo destitui o corpo - estranhamente ressecado - do cavaleiro. Ugo toma para si a espada de lâmina negra, Mormegil, sem saber ainda do que era capaz.

    Com a vitória em mãos, os companheiros decidem partir para as montanhas Gungard, em busca do covil de Vermillion, para pedir-lhe informação sobre o que era o Orbe e solicitar auxílio contra Reloah.

Considerações: De forma muito apressada, contei os fatos principais, citando apenas aquilo que é necessário para a compreensão de como o mundo ficou após os eventos de A Apoteose.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Narrativa #4: Culto ao Leviatã

    Bem vindos de volta! Esta narrativa conta fatos offgame, que os jogadores não fizeram parte - ao menos não diretamente. As narrativas como esta serão um modo de mostrar as pequenas e grandes mudanças que os jogadores causaram em Tellerian, para o bem ou para o mal, assim como contextualizar cidades, povos, lugares e pessoas.
    Os fatos a partir daqui contados se referem à 2ª Temporada de Tellerian, 84 anos após a campanha original. Os personagens desta vez são: o guerreiro anão Belgest (Luis), neto de Belar, que foi personagem do mesmo jogador na Temporada anterior; Adaak (Neto), um paladino que se juntou à Ethos para se redimir de ter causado a morte da própria família num acesso de fúria sobrenatural; o clérigo Érebor (Eddie), com um passado sombrio e uma conexão simbiótica com um espírito das trevas chamado de Umbra; Raduh (Caio), um draconato verde exilado, que se juntou a Resistência Arcana e se tornou um cavaleiro rúnico com poderes das trevas [vocês o verão aqui no blog através de seu diário]; Lilrelei, ou Liu, (Mateus), um ladino explorador meio elfo, irmão de Ellian (Marcela), uma meia elfa como o irmão, mas com um espírito sanguinário de bárbara; e Miryo (Sara), uma ranger desertora da Ethos, cuja família foi assassinada pela própria instituição, fato que ela descobriu tardiamente.

Narrativa #4 - Culto ao Leviatã

   A madrugada silenciosa dos portos estava tão tranquila quanto sempre, sua quietude abalada apenas pelo som das ondas se chocando contra o cais. O frio formava uma densa névoa sobre a água, que se erguia do Lago Comprido como uma neblina úmida, cobrindo toda a Baixada.

   Sozinho no Armazém 12, Irvin amaldiçoava seu chefe e a família deste, rogando pragas silenciosas enquanto desencaixotava sacas de milho. Tiritava de frio sob o gibão de peles, esfregando as orelhas para aquecê-las.
   A lua crescente desapareceu atrás de pesadas nuvens, obrigando-o a parar e acender mais lamparinas para dispersar a escuridão, mas as trevas daquela noite pareciam mais densas, mais frias, quase maléficas, pesando sobre ele... Os pingos pesados da chuva cessaram suas reflexões, jogando-o de volta ao mau humor de antes.
   Terminou o serviço praticamente abraçado à uma lamparina, tentando livrar-se do frio que penetrava por suas roupas molhadas. Trancou o armazém, apressando os passos para encontrar sua cama o quanto antes, quando ouviu sons gorgolejantes e o som de vozes se perdendo na neblina.
   Estranhou, com bons motivos, a presença de pessoas ali, ainda que ele mesmo estivesse trabalhando até tão tarde no cais.

   “Quem, pelo Abismo, está aqui fora num frio desgraçado desses?!”, pensou ele. "Outro fodido."


   Irvin estreitou os olhos, esticando a mão que segurava a lamparina e caminhando na direção da água. O som gorgolejante se tornou mais audível e o jovem apressou o andar, olhando para a água e temendo que alguém estivesse se afogando ali perto, escondido pela neblina.
   Se aproximou com um nó na garganta, sem saber bem o que esperar, mas atraído por uma curiosidade que lhe era estranha. Temeu, por um segundo, encontrar apenas o cadáver gélido de um conhecido.
   Então, paralelo ao gorgolejar incessante, ouviu vozes rudes murmurando algo que não compreendia. O cântico se tornou mais nítido confirme o jovem se aproximava, então cessou repentinamente, junto com o som que o havia deixado tão inquieto. Saltou a grade que bloqueava a passagem para o quebra-mar, estacando ao aterrissar do outro lado. Ficou completamente abismado com o que via.

   Na parte mais baixa das pedras, duas ou três dezenas de homens e mulheres estavam parados, encharcados e imersos na água até os joelhos. Uma dúzia ou mais deles traziam lamparinas e as luzes tremulantes das chamas revelavam rostos deformados, de olhos esbugalhados e pele flácida como sapos; seus cabelos eram tufos esparsos de pelo fino, colados na cabeça pelo toque da chuva; aqueles que abriram as bocas em silvos e sons sibilantes mostraram dentes podres e buracos vazios de dentição irregular.

   Engolindo em seco, tremendo sem saber se de frio ou de medo, Irvin olhou – paralisado – para a água, onde um par de grandes homens deformados seguravam um terceiro, que pendia inerte.
   O que viu depois disso decretou o seu fim. O jovem soltou um berro esganiçado e derrubou a lanterna que trazia, atraindo a atenção daquelas criaturas. Tentou correr daqueles que vieram na sua direção, mas as penas não obedeceram.

   A criatura, o monstro que emergiu do lago, espalhando a névoa, parecia saído de um pesadelo. O couro azulado e mucoso era quase negro, seu corpo disforme era maior que o de qualquer criatura que ele já tivesse visto. Sob ele, tentáculos compridos saíram da água, esticando-se para o moribundo.
   Na protuberância tosca que era sua cabeça, o monstro ostentava três olhos, um sobre o outro: olhos rubros como entranhas, imensos e cintilantes, profundos e tão cheios de compreensão e maldade que fizeram o estômago do jovem revirar e colocar para fora tudo o que comera.
   O monstro parecia refastelar-se com o medo. Sua bocarra com inúmeros dentes agudos se abriu, sugando água com um som gorgolejante, depois a excretou com o mesmo som, mas repleta de um muco escuro com o fedor do mais podre esgoto.

   Como um trovão, a voz profunda e grave da criatura vibrou sua cabeça, fazendo Irvin ver manchas pretas. A tontura causada pelo cheiro horrendo e pela pressão abissal que a voz produziu em sua cabeça, quase o levou à inconsciência, deixando-o inerte e apático.

   - Aceite... A Benção... - disse o monstro, enroscando o primeiro prisioneiro com quatro asquerosos tentáculos.
   Todas as criaturas presentes passaram a bater freneticamente em seus tórax, erguendo suas vozes em gritos tribais cheios de silvos e rosnados.
   Irvin, arrastado por duas delas, tocou as pernas na água fria, retomando consciência a tempo de ver o prisioneiro começar a se debater em espasmos descontrolados, juntando seu berro de dor à gritaria ensandecida das criaturas.

   - Aceite a Benção das profundezas. - ordenou o monstro, apertando o homem com seus tentáculos e afundando-o na água. - Aceite a Benção. Aceite a Benção.
   Muitas criaturas juntaram suas vozes ao ritual, sibilando e silvando de forma arrítmica. - Aceite a Benççççção. Assssceite a Benção!

   As bolhas subiram pelo que pareceu ser uma eternidade, enquanto o homem se debatia, submerso. Então cessaram.

    Fez-se silêncio.

   Do lugar onde o homem afundara, se ergueu lentamente uma criatura de feições anfíbias, recoberta de muco putrefato. Erguendo a face para a chuva que caía, a criatura recém-nascida bateu no peito, rosnando, ao que todas as outras se uniram.

   - Tragam o outro. -  disse o monstro.

   E Irvin foi arrastado para a água podre.

domingo, 24 de maio de 2015

Narrativa #3: Sombras e Poeira

    Bem vindos de volta! Esta narrativa conta fatos offgame, que os jogadores não fizeram parte - ao menos não diretamente. As narrativas como esta serão um modo de mostrar as pequenas e grandes mudanças que os jogadores causaram em Tellerian, para o bem ou para o mal, assim como contextualizar cidades, povos, lugares e pessoas.
    Os fatos a partir daqui contados se referem à 2ª Temporada de Tellerian, 84 anos após a campanha original. Os personagens desta vez são: o guerreiro anão Belgest (Luis), neto de Belar, que foi personagem do mesmo jogador na Temporada anterior; Adaak (Neto), um paladino que se juntou à Ethos para se redimir de ter causado a morte da própria família num acesso de fúria sobrenatural; o clérigo Érebor (Eddie), com um passado sombrio e uma conexão simbiótica com um espírito das trevas chamado de Umbra; Raduh (Caio), um draconato verde exilado, que se juntou a Resistência Arcana e se tornou um cavaleiro rúnico com poderes das trevas [vocês o verão aqui no blog através de seu diário]; Lilrelei, ou Liu, (Mateus), um ladino explorador meio elfo, irmão de Ellian (Marcela), uma meia elfa como o irmão, mas com um espírito sanguinário de bárbara; e Miryo (Sara), uma ranger desertora da Ethos, cuja família foi assassinada pela própria instituição, fato que ela descobriu tardiamente.

Narrativa #3 - Sombras e Poeira

     O silêncio pesava sobre a biblioteca como se estivesse apertando o ar.

    Já passava da meia noite, mas Cássio ainda permanecia concentrado, pois atrasara seus projetos e Wolfgang, seu professor e diretor da biblioteca, o havia dado uma das maiores broncas da sua vida.
   Meia dúzia de velas tremulavam em volta do seu grimório, dando luz para que ele pudesse transcrever as complicadas fórmulas que viera estudando para mostrar ao Fundador, que viria à Pedrabranca no solstício de inverno, dali a duas semanas.
   Terminou outro parágrafo e largou a pena, fechando o tinteiro, os olhos e espreguiçando-se com uma maravilhosa sensação de dever cumprido.

    Cássio estava estudando para ser bruxo há quase quatro anos e já começava a aprender feitiços de verdade. Treiná-los era mais complicado... Parou de pensar e concentrou-se, olhando com firmeza para uma das velas que haviam apagado e começou a repetir mentalmente a fórmula que Wolfgang o ensinara.
    A confiança ainda vacilava, mas ele logo sentiu o familiar frio na barriga. Um formigamento na língua, um arrepio na nuca.

   – Kae... – Um som surdo ecoou pela biblioteca e Cássio se pôs de pé num sobressalto. – Eu juro que não ia-.

     O silêncio retornou num átimo, tão profundo quanto antes do estrondo e, por um segundo, o jovem permaneceu completamente parado. Alguns segundos depois, um vento frio percorreu o corredor, arrepiando-lhe todos os pelos do corpo. O som de uma janela batendo, aberta, por algum motivo fez seu coração acelerar. 

     Cássio recolheu suas coisas às pressas, tomado por uma urgência e um medo irracional e sem controle. Engolia em seco sentindo o coração bater contra a garganta ao correr desenfreadamente entre as estantes com todos os seus livros apertados contra o peito.
    O desespero aumentava a cada segundo e ele não mais dava atenção às penas, tintas e pergaminhos que caíam pelo chão. 

     Avistou a porta dos dormitórios já ofegante. Alcançava metade do caminho até lá quando reparou que havia algo em seu caminho. Não conseguia discernir mais que uma silhueta no escuro e quando os olhos vermelhos o encararam, seu grito não fez som. 

    No outro dia ninguém reparou que os olhos de Cássio pareciam um pouco... Vermelhos.

Narrativa #2: Nas Vielas de Pedrabranca

    Bem vindos de volta! Esta narrativa conta fatos offgame, que os jogadores não fizeram parte - ao menos não diretamente. As narrativas como esta serão um modo de mostrar as pequenas e grandes mudanças que os jogadores causaram em Tellerian, para o bem ou para o mal, assim como contextualizar cidades, povos, lugares e pessoas.
    Os fatos a partir daqui contados se referem à 2ª Temporada de Tellerian, 84 anos após a campanha original. Os personagens desta vez são: o guerreiro anão Belgest (Luis), neto de Belar, que foi personagem do mesmo jogador na Temporada anterior; Adaak (Neto), um paladino que se juntou à Ethos para se redimir de ter causado a morte da própria família num acesso de fúria sobrenatural; o clérigo Érebor (Eddie), com um passado sombrio e uma conexão simbiótica com um espírito das trevas chamado de Umbra; Raduh (Caio), um draconato verde exilado, que se juntou a Resistência Arcana e se tornou um cavaleiro rúnico com poderes das trevas [vocês o verão aqui no blog através de seu diário]; Lilrelei, ou Liu, (Mateus), um ladino explorador meio elfo, irmão de Ellian (Marcela), uma meia elfa como o irmão, mas com um espírito sanguinário de bárbara; e Miryo (Sara), uma ranger desertora da Ethos, cuja família foi assassinada pela própria instituição, fato que ela descobriu tardiamente.

Narrativa #2 - Nas Vielas de Pedrabranca

   O grande continente de Solamne, a oeste do Mar do Mercador, é o berço próspero da civilização de Tellerian, lar de homens, anões, halflings e outras tantas raças inteligentes que formam a complexa rede de povos que habita as três nações ali estabelecidas.

   A bissetriz do Rio do Sol divide, politicamente, Solamne norte e sul. Ao norte deste marco e a oeste dos pântanos de Seisrios, fica o reino de Roeheim – "terra ocidental" na língua dos anões – governado pela dinastia de Durin na cidade de Asper, que fica na encosta sul das montanhas Roegard.
   A nordeste de Seisrios fica o reino de Gunheim – "terra nortenha' na língua anã – que já teve outro nome, mas este se perdeu quando da aproximação com os anões das montanhas Gungard. O reino de Gunheim é governado há centenas de anos pela Casa Moris de Palas.

   Ao sul do Rio do Sol fica a República de Savant, com capital em Pedrabranca. Os habitantes da República se orgulham de sua nação por seu governo sábio, formado por cinco representantes, um de cada raça fundadora, sejam elas: homens, elfos, anões, drows e halflings.

   Pedrabranca é, senão a maior, um das maiores cidades do continente. Seu povo miscigenado vive em harmonia sob as sombras das imensas estátuas dos fundadores, que olham por sua magnífica cidade do topo da Colina.
   No entanto, os tempos de paz acabaram. A investida orc, sob os comandos de Hogg, abalou a segurança da República e um de seus ataques incendiou parte da cidade, ruindo duas das grandes estátuas.
   Estranhamente, o Filho da Serpente não voltou a atacar Pedrabranca e correm boatos de que o fizera apenas para mantê-la intacta, tomá-la por dentro e fazer da capital a sede do seu reinado cruel.

   Os embates de ideias e sangue entre a Ethos e a Resistência também vêm dividindo ideais na cidade branca. A violência, ainda que velada, tem atingido patamares jamais vistos na história da República. Fato é que está cada vez menos seguro atrás das muralhas alvas de Pedrabranca, ainda que fora delas esteja ainda pior.

   Sabendo disso, Ceres não conseguia caminhar do trabalho para casa sem que um frio tocasse sua espinha sempre que passasse por um beco ou viela mal iluminada.
   Ela era cozinheira assistente e por vezes garçonete de uma nem tão grande, mas muito frequentada taverna no centro da cidade, a taverna Donzela Feliz – apelidada carinhosamente de Puta Feliz pelos clientes mais assíduos.

   “De donzela essa taverna não tem nada.”, vivia repetindo Burgo, um mercador de vinhos que fornecia e consumia muitas das bebidas da Donzela.

   A moça, já na casa dos vintes e tantos anos, era responsável pela criação de seus irmãos mais novos, os gêmeos Heitor e Félix, enquanto o pai – soldado consagrado da Ethos Alfa estava longe, em campanha.
   O dinheiro enviado pelo pai nem sempre era o suficiente para a manutenção das despesas e por isso, todos os dias, Ceres saia da Baixada e caminhava quatro tortuosos quilômetros até o Centro, onde trabalhava por doze horas antes de fazer o caminho inverso.

   Percorria este caminho inverso naquela noite, descendo as ladeiras que levavam do Centro à Baixada, quando seus temores tomaram forma nas silhuetas de quatro homens saindo de uma rua transversal estreita e escura.

   Ela, sem disfarçar, deu meia volta, apressando os passos rumo à rua de cima, na qual se via o movimento – ainda que reduzido - de pessoas e carroças.
   O passo veloz se transformara numa corrida e ela já ultrapassava metade do percurso quando ouviu o som do ar sendo cortado e o chicote mordeu o seu tornozelo como uma tira de fogo.

   A dor aguda e súbita reinou sozinha por um segundo, então Ceres se chocou contra o chão calçado de pedras brancas e o mundo girou como um redemoinho cruel.
   Tonta e desesperada, a garota tentou se arrastar, mas parecia que cada osso de seu corpo estava gritando. Os músculos se moviam a contrassenso, a pele ardia onde a derme abrira e lágrimas já corriam por sua face.

   - Onde esssstá tentando ir, moça? - A voz desdenhosa tinha um tom estranho, como se o homem estivesse sibilando.

   Aos prantos, Ceres tentou se erguer e sentiu mãos rudes agarrarem-na pelos braços e cabelo. Debateu-se violentamente, mas não teve sucesso em se libertar.

   - Por favor, não... – Choramingou ela, olhando para aqueles horrendos olhos amarelados.

   - Não sssse preocupe. – Disse ele. - Tudo ficará bem. Bem demaisssss.

   Então o pesadelo começou.

domingo, 14 de setembro de 2014

Resumo de Sessão #4 - Eco

    Salve! Este é o quarto resumo das sessões de campanha mais antigas, contando as aventuras e (mais recorrentes) desventuras do maior grupo de heróis desbravadores que Tellerian já viu.
    Os personagens são a elfa ladina Laurana (Julia), a senhorita discórdia, que sempre pensa em si mesma antes de qualquer coisa; o elfo monge Gadeus (Neto), o mais comedido do grupo, com a pior mão de todos (haja falha crítica); o bárbaro meio orc Ugo (Caio), que apesar de ser o louco do grupo, algumas vezes põe os óculos da sabedoria e vira o conselheiro; o feiticeiro meio anjo Kaly (Eddie), que tem um código dos heróis, mas sempre acha brecha pra fazer coisas erradas (os Deuses estão vendo); a paladina draconato Brianna (Marcela), que definitivamente deixaria você morrer só pra dar mais uma machadada no inimigo; e o arcanista  milenar Rafiki (Arthur), também conhecido por sua arte de tortura física e psicológica (você ainda tem dezoito dedos...).

   Na cena anterior desta sessão, vimos a difícil situação na qual os companheiros se viram ao aceitar a missão. Após uma luta tremendamente desesperadora nos esgotos da cidade, o grupo retorna à hospedaria, cedendo ao cansaço.

Capítulo 4: Eco

   Cena 1: Abrindo a Caixa

   Ainda feridos, mas distante da morte, os companheiros reúnem o saque da noite anterior e - após certo debate - decidem levar a um avaliador, antes de entregar ao homem que os contratara. Não haviam corrido risco tão grande de vida para serem enganados e mal pagos.

   O avaliador lhes informa que a espada, uma espécie de rapier, na verdade é um item mágico. Uma personalidade agressiva se debate dentro do objeto. Pede que tenham cautela, pois se a lâmina se alimentar de sangue, é possível que tal personalidade se torne ainda mais forte.
   Aproveitando-se da situação, Laurana aproveita para analisar a caixa. Com o auxílio do especialista, o grupo chega a uma solução para o enigma. Sangue mortal seria o sacrifício necessário para abrir. Sem pensar duas vezes, Ugo toma a caixa de Laurana, que tenta em vão enfrentar a força do bárbaro. 

    Assim, Ugo corta o próprio pulso, derramando o sangue sobre a caixa, que bebe avidamente o líquido. O meio orc começava a se tornar pálido, quando a caixa se abriu. No topo, uma carta representava uma bela mulher com asas, sob ela, seu nome: Alada.
   Tão logo tiraram a primeira carta do monte, o chão tremeu. Enquanto tentavam em vão manter o equilíbrio, o terremoto sacudiu as paredes, derrubando itens das prateleiras, quebrando os vidros da janela. Do lado de fora, viram casas inteiras ruírem na medida que o terremoto se propagava. Dois minutos mais longos que um dia inteiro foram aqueles.

   O tremor teve fim, mas o desespero não. Gritos vinham de fora da loja, homens e mulheres corriam rua acima e abaixo, enquanto os companheiros se entreolhavam assustados com o que supostamente haviam feito.
  Não desejando ser conectado àquilo de nenhuma maneira, o avaliador os expulsou aos berros. Dali, o grupo voltou à hospedaria, temendo que outras cartas se manifestassem.

  Cena 2: Comedores de Aço

   Após descobrir que a espada pela qual quase morreram era mágica, os companheiros decidiram se apropriar dela. Assim, não haveria recompensa e por este motivo ainda precisavam de provisões, por isso decidiram separar-se e buscar outras missões, reunindo os recursos que não haviam obtido.
   Após algumas curtas negociações, o grupo se dividiu: Ugo, Gadeus e Brianna iriam ao Distrito do Ferro, onde muitos armeiros estavam tendo um problema com certas criaturas insectóides; no lado sul da cidade, Laurana e Kaly procurariam a infestação daquilo que o contratante chamou de "gnomos fantasmas", que tornaram impossível para os habitantes visitarem seus parentes enterrados no Cemitério Verdevale.

   Já no Distrito do Ferro, os três seguiram o rastro de destruição deixado pelas criaturas, atravessando o limiar semidestruído de uma grande construção. Escondido pelas sombras, no meio do entulho, um par de insetos moviam suas antenas e patas asquerosas, torcendo, despedaçando e devorando um pedaço enferrujado de metal fino.
   O som dos passos desengonçados de Ugo, que tintilava em sua cota de malhas, logo atraíram a atenção das criaturas. Subitamente atentas à aproximação dos mercenários, os insetos - que assomavam com o tamanho de cães de caça - deslocaram-se velozmente com suas patas finas. Uma das criaturas desapareceu através de um buraco na parede, sumindo nas sombras; mas a outra avançou contra o grupo, soltando um guincho frenético e sibilante.

   Ugo saltou sobre ela de machado em punho, mas a criatura o flanqueou, esquivando do golpe e derrubando-o. Sobre ele, o monstro estalava suas pinças, mas Ugo o segurava com firmeza, ainda assim, as antenas do inseto arranhavam sua armadura, escorrendo sobre ele um líquido malcheiroso e amarronzado. Tão logo Ugo arremessou a criatura para longe e se ergueu, sentiu a gosma enferrujar e derreter sua cota de malha que se despedaçou e caiu no chão..

   Furioso, o meio-orc arrancou o que restava da armadura e gritou com os companheiros, exigindo ajuda. Seguindo a call do bárbaro, Brianna bloqueou o próximo avanço do monstro com seu escudo de madeira, arremessando-o de lado no chão, num golpe certeiro, Ugo arrancou a pequena cabeça da criatura, que se debateu um segundo antes de morrer. No entanto, ao que parecia, até mesmo o sangue daqueles monstros era o terror para o ferro: a lâmina do machado de Ugo escureceu e se despedaçou, como uma folha que apodrece.
 
   Enraivecido, Ugo largou o cabo do machado, arremetendo sozinho através do buraco, sacando o florete que haviam recuperado dos esgotos. A última coisa que Brianna e Gadeus viram foi um brilho violeta através do rombo na pedra, enquanto os guinchos assobiaram e o bárbaro começou a rugir.

   Cena 3: O Ataque dos Mordedores

   Chegando no cemitério, Laurana e Kaly observaram que a guarda da cidade havia criado um perímetro de cercas de madeira, patrulhada por soldados. Apresentando a identificação dada ao serem contratados, puderam passar o perímetro, adentrando na área cheia de tumbas e lápides. O silêncio era lúgubre, cortado apenas por passos velozes e leves, dos quais eles não podiam ver a fonte.
 
     Fizeram seu caminho em meio às lápides, seguindo os rastros de pegadas que pareciam mais recentes, de orelhas em pé para os passos que pareciam vir da próxima esquina e da próxima e da próxima, mas nada encontravam. Num salto, Laurana agarrou o topo de uma tumba, alçando a si mesma para o teto e de lá, viu o que antes lhes escapava.
 
    Repentinamente avistados, todos eles pararam. Como se de pedra fossem, ficaram paralisados, apenas olhando para a elfa e piscando rapidamente seus grandes olhos escuros. Duas dúzias de criaturas os cercavam. Alguns agachados, alguns agarrados à paredes com unhas afiadas, outros equilibrados sobre lápides. Eram como crianças, mas não tinham pelos no corpo, nem cabelo, nem vestiam roupas. Sua pele era cinza, pálida. Parecia quase prateada quando a luz caía diretamente sobre seus corpos esguios. Sorriam com dentes afiados e irregulares.
    Então, gritaram. Desvairadamente como apenas crianças sabem gritar. Um choro agudo, um berro do fundo dos pulmões. E correram. Correram sobre os quatro membros, num movimento longe de ser natural, como se estivessem imitando aranhas. Seus braços e pernas finas praticamente se cruzavam na velocidade. Pelo chão e pelas paredes, avançaram gritando, subindo a tumba na direção de Laurana e cercando Kaly por todos os lados.

   A elfa tirou as facas, atacando à esquerda e à direita, girando no próprio eixo, mas eram muitos. Cravou a faca no peito de uma criatura, sentindo a pontada moral de estar matando uma criança, ainda que monstruosa; mas o sentimento de culpa durou pouco, um deles escalou suas costas, cravando unhas afiadas na sua pele e começou a puxar seus cabelos. Aos berros, Laurana tentou sacudi-lo para longe, soltando uma das facas no processo. Outro agarrou seu braço, puxando-a para baixo e Laurana ajoelhou.
   Então um deles a mordeu. A dor aguda e lancinante de vários dentes agudos penetrando sua pele e mais que isso: uma súbita fraqueza que tremeu suas pernas. A criatura estava sugando sua energia junto do seu sangue.

   Ouvindo o grito da amiga, Kaly recuou, mas havia muitos deles. Juntou as mãos e a magia condensou um plasma frio entre suas palmas. Abriu os braços e o globo disparou raios gelados para todas as direções, muitos dos mordedores congelaram no ar, ou agarrados nas pedras. Um segundo bastou e Kaly apertou as mãos em punhos e sussurrou a ordem:
    - Caixão ártico! - esmagando-os com o gelo que os cobria.
    O sangue escorreu entre as brechas da carne congelada, e uma dúzia deles caiu ao chão.

   Saltando para trás, Laurana caiu sobre a criatura que estava agarrada em suas costas, completando a cambalhota para trás do mordedor. Antes que ele se recuperasse, rasgou seu pescoço de orelha a orelha com a faca que lhe restava. Ainda com o sangue pingando da lâmina e escorrendo por seu braço, Laurana se pôs de pé e arremessou a adaga diretamente pelo olho do mordedor que a derrubara.
    Um salto pro lado, rolou sobre si mesma, recuperou as facas e se jogou da tumba para o chão, empalando mais um monstrinho. Mas havia mais. Muitos mais.

    O grito daqueles que os atacaram chamou outros e, como formigas, atenderam. Vinham de todos os lados, subindo e descendo as lápides, naquele jeito escroto e esquisito de se deslocar sobre os quatro membros.
     Laurana arregalou os olhos pensando:
     - A gente vai morrer...
    Olhou em volta e viu que a tumba na qual subira - um grande mausoléu - possuía uma pequena porta retangular. Ainda com os punhais nas mãos, sem saber o que a esperava do outro lado, Laurana arremeteu contra o portal, dando-lhe o chute mais poderoso que podia. E a porta nem se moveu.
    Kaly se juntara a ela e a multidão de mordedores se aproximava cada vez mais. Tentando dar mais tempo para a gatuna, o meio-anjo condensou novamente seu Poder, disparando tantos raios quanto podia, impedindo o avanço de uma parte das criaturas.

 
    Cena 4: O Bruxo de Dez Mil Anos

   Abriu os olhos, apenas para fitar a mais profunda escuridão. Um estrondo havia abalado o seu sono, mas o silêncio retornara quase que de imediato. Memórias confusas se embaralhavam em sua mente, talvez um sonho, talvez uma lembrança... Como saber?
  Um medo que passou tão veloz quanto um pesadelo do qual se acorda. Um vazio desconfortável.

  Estava deitado num chão frio, áspero e duro. Não lembrava como havia chegado ali. Tateou a escuridão. Seus dedos se fecharam em torno de um bastão. Finalmente algo familiar. Apoiou-se no cajado e se ergueu, mas nada podia ver. Bum. O estrondo se repetiu e Rafiki ergueu os olhos, na direção do som. O preto e o branco eram a mesma coisa no escuro, nada havia para ver, então fechou os olhos e sentiu.
   Aquele sexto sentido que apenas os arcanistas e alguns poucos abençoados possuíam era como um terceiro olho. Sentiu o desespero e a pressa das duas criaturas, uma delas que batia freneticamente contra seu abrigo escuro. A fome e a confusão na mente daquelas inúmeras criaturas que se deslocavam na sua direção. Abriu os olhos.
 
   Laurana saltou e, com o impulso dos braços, chutou a porta novamente e a pedra cedeu, abrindo para trás num movimento lateral. Esgueiraram-e pela brecha, forçando a pedra de volta ao lugar bem a tempo de ouvir uma voz rouca e grave ecoar de trás de si.
   - Eu preciso de luz aqui dentro. - disse Rafiki.
   Ofegante, a elfa se virou, para enxergar uma grande escada descer na penumbra. Na parte mais baixa do que parecia um anfiteatro, um velho barbudo se apoiava num bastão comprido cujo topo emanava uma forte luz. Vestia um manto monocromático, surrado e amassado.
 
   As paredes daquele lugar estavam repletas de figuras apagadas pelo tempo. Escrituras já impossíveis de se ler. Rachaduras se esticavam e imensas teias de aranha caíam penduradas como cortinas de cada canto e viga.

     Após se entreolharem e cochicharem rapidamente, os dois aventureiros decidiram que valeria mais a pena tentar a sorte com um velho sozinho numa tumba do que três dezenas de gnomos comedores de pessoas.

    Com a pedra de volta ao lugar, as criaturas se apertavam contra a pequena fresta que restara, mas eram incapazes de movê-la. Seus guinchos e sibilos se misturavam ao som frenético que faziam ao arranhar a porta com suas unhas.
 
    Começaram a descer a escada, sentindo o peso que o teto escuro fazia naquela câmara. Cada passo fazia o eco de uma caminhada inteira e o ar era pesado, frio e com o cheiro de terra fresca. Rafiki observou os dois estranhos com olhos curiosos e também passou a caminhar na direção deles.  
    
   - Quem é você?- inquiriu a elfa, antes mesmo de alcançar o velho.

   - Hmm... Eu sou Rafiki. - disse ele, mexendo na barba. - E vocês? Quem são vocês?

   - Eu sou Kaly e essa é Laurana. - respondeu o meio-anjo. - O que você está fazendo aqui?

   - O que vocês estão fazendo aqui? - perguntou o velho em resposta.

   - Ele perguntou primeiro. - disparou Laurana, apontando o dedo estendido em riste para o estranho.

   - Tem uns bichos lá fora. - respondeu Kaly, apesar da resposta da elfa. - Nós estávamos fugindo deles porque são muitos. E você, também fugiu deles pra cá?

   - Não. Eu acordei aqui. - disse ele. - Mas eu estou sentindo os bichos.

   - Sentindo?
  
   - É. Sentindo.

   Cena 5: A Espada do Traidor

    Brianna e Gadeus seguiram o amigo através do buraco, correndo na penumbra por corredores cheios de entulho. A luminosidade violeta e os berros ensandecidos do bárbaro, no entanto, estavam sempre na próxima sala, depois da próxima esquina.
     Saltaram sobre rochas, pedaços de parede e passaram por portas. Eventualmente encontrando uma carcaça partida de inseto. Subiram uma escada para então encontrar Ugo respirando pesadamente no meio de uma dúzia de corpos despedaçados de monstros.

    Na mão do bárbaro, o florete brilhava tenuemente, envolto por uma luz violeta. A lâmina parecia vibrar, tremendo o ar em volta. Sob a roupa do meio-orc, espalhando-se pelo seu braço direito, runas e intrincados desenhos luziam no mesmo tom da espada, forte o suficiente para serem vistos sob o pano.
    Com um equilíbrio e uma postura estranhos a ele, Ugo se virou, encarando os amigos com um olhar vazio. Seus olhos pareciam estar bloqueados por uma nuvem e estavam também arroxeados.

   Com um rugido grave, Ugo investiu contra os amigos. Brianna ergueu o escudo, apenas para receber um chute em cheio na madeira e cair deitada. O bárbaro brandiu a espada contra o elfo, mas Gadeus evitou o golpe com facilidade e socou a mão do amigo, desarmando-o. Surpreendido, o meio-orc tentou lhe acertar um soco, mas Gadeus novamente evadiu por sob o braço dele, golpeando-o com força entre as costelas e na lateral da perna. Ugo caiu de joelhos e o elfo o desacordou, socando-o na têmpora.

    O monge buscou a espada, mas o brilho refletiu, subindo por seu braço. Arremessou a lâmina de volta ao chão, sentindo sua cabeça pesar. Gadeus não entendera bem o que havia acontecido, mas percebeu que não era uma boa ideia empunhar o florete.
      - Talvez devêssemos ter entregue isso de vez ao dono. - pensou ele.
     Com a capa, o elfo enrolou a espada, que reduziu seu brilho até apagar, e a guardou atada às costas com uma corda. Em seu braço, brilhava tenuemente o mesmo desenho complexo que o florete fizera em Ugo.

     Considerando que o bárbaro havia massacrado todas as criaturas, visto que nenhuma mais havia por perto, Brianna e Gadeus deram por completa a missão. A draconato jogou o meio-orc sobre um ombro e caminharam todo o caminho de volta.
   Estavam a descer o Distrito do Ferro quando Ugo acordou. Não se recordava de nada após a investida inicial e achava estranho as dores que sentia nas costelas e no rosto.
     - Você perdeu o controle e foi pra cima dos bichos... Eles devem ter te dado uns golpes, mas parece que não restou nenhum pra cantar vitória. - disse Gadeus.
     Feliz consigo mesmo, o meio-orc quase esqueceu do fato de ter perdido o machado e a cota de malha. Na entrada do Distrito, receberam a recompensa pelo trabalho, após relatar parte do que acontecera.

     Assim, os três decidiram ir até o cemitério, encontrar, senão ajudar, os outros dois membros do grupo. Gadeus e Ugo começavam a ouvir o sussurro discreto dos pensamentos daqueles que estavam em volta, compreendendo rapidamente o que acontecia.

    Cena 6: Quietus

    - Igual eu estou sentindo que você tem um brilhinho aí na sua bolsa. - continuou o velho.

    Laurana levou instintivamente a mão à bolsa, que logo começou a emitir um brilho intenso. Rafiki sentiu o Poder ampliar e ampliar, como uma bolha. E fez-se silêncio.
    Todo o som desapareceu como quando se afunda completamente na água parada de um lago. A sensação de surdez repentina deixou a todos desconfortáveis e engoliram em seco, tentando consertar a audição, mas não conseguiram ouvir nem mesmo o som de suas gargantas. Piscaram, aturdidos, e mexeram nos próprios ouvidos, mas o som realmente desaparecera.
 
    Brianna, Gadeus e Ugo chegavam ao Cemitério Verdevale quando tudo ficou em silêncio. Viram guardas e pessoas se desesperarem. Já não bastava o terremoto... O que mais havia de acontecer por ali?
    Ambos, elfo e meio-orc, através daquele poder estranho que a espada os havia imbuído, puderam ouvir os pensamentos confusos e desesperados daqueles homens e mulheres.
    Na confusão, ultrapassaram o perímetro criado pela guarda e seguiram o sussurro distante dos pensamentos de seus dois amigos.

    Com gestos, Laurana, Kaly e Rafiki se dispuseram a sair da tumba, mas bastou chegar à porta para hesitarem. Do outro lado ainda podiam ver os mordedores se debatendo contra a fresta.

    Caminhavam entre as lápides quando Gadeus e Ugo ouviram um choro. Estranho e confuso como todos os pensamentos que ouviam, vinha de algum lugar próximo e, com gestos e tal telepatia, decidiram investigar.
    Recostada numa lápide havia uma garotinha de cabelos castanhos, presos em dois montinhos dos lados da cabeça. Estava num vestido rosado cheio de babados e laços, roupas muito estranhas mesmo para uma menina da nobreza.
    - Cadê meu pai? Eriol, Eriol... - chamava ela, em pensamento, em meio a uma profusão de imagens absurdas e abstratas de lugares cheios de luz, pessoas com asas, fogo e cristais de gelo. - Eriol, cadê você?
     Ao se aproximarem, receberam o olhar profundo e azul da garota, que - naquele silêncio sobrenatural - falou com uma voz infantil tão profunda quanto o som de uma harpa.
      - Fiquem longe! Quem são vocês?! CADÊ MEU PAI?!
      Pararam por um momento, antes de se aproximar lentamente, tentando pacificar a estranha menina.

    Laurana, Kaly e Rafiki ouviram a voz infantil projetar-se naquela quietude. Assim também, os mordedores ouviram. Todos pararam daquela maneira estranha que fizeram ao encarar Laurana, então viraram-se e, sem nenhum som, partiram em disparada na direção da voz.
     Temendo pela segurança da portadora da voz, os três forçaram a abertura da porta e seguiram as criaturas às pressas.

     Com algum esforço, Brianna conseguiu acalmar a garota, mesmo sem o uso da voz e - desabando em lágrimas - a menina abrigou entre os braços da imensa guerreira dragão. Tão logo a aventureira abraçou a menina, o som voltou ao mundo como uma imensa onda que esvazia o mar antes de se arrebentar contra a costa.

     - Qual é seu nome? - perguntou Brianna.

     - Eu quero meu pai! - resmungou a menina.

     - Calma, eu vou levar você pro seu pai. - disse a draconato, acariciando os cabelos finos da garota. - Mas preciso saber seu nome e o nome do seu pai.

    - Eu sou Eco. - disse a garota, fungando. - Meu pai é o maior mago do mundo. Eriol.

    - Hummm... Tudo bem. Vou levar você até ele.

    Eco assentiu e começou a brilhar. Como se estivesse se tornando uma estrela, ela brilhou até que não fosse possível encará-la. E quando a luz desapareceu, não havia mais uma garota, mas uma carta comprida no lugar com um desenho rebuscado e fantástico da garota, subscrito por seu nome numa caligrafia floreada.

     - As cartas estão se libertando. - concluiu Ugo.

    Gadeus assentiu. Então ouviram a corrida desenfreada dos seus amigos e o som ligeiro de muitos pés.
    Quase não tiveram tempo de sacar as armas. Os mordedores vieram de todos os lados.

   Cena 7: Massacre de Gnomos

    Brianna, chocou o escudo contra o primeiro que se atirou contra ela, jogando-o contra uma lápide, que se partiu, e partiu em dois pedaços o segundo num único golpe de machado.
    Ugo, segurando seu machado restante com ambas as mãos, fendeu o crânio de um mordedor com um golpe, enquanto Gadeus assumia sua postura de combate. Cercado, o monge esperou que investissem contra ele antes de desferir sua habilidade: com a velocidade que apenas um monge teria, moveu os punhos para cima e para baixo, para um lado e para o outro, girando no próprio eixo. Cinco mordedores caíram imóveis ao seu redor.

    Laurana arremessou uma faca antes mesmo de se juntar aos amigos, acertando uma criatura no ar e derrubando-a no meio do salto. Saltando na direção de uma tumba, um passo e outro na parede, a elfa chegou ao topo, recuperando a faca e degolando outro monstro com um golpe duplo no pescoço.

    Kaly moveu as mãos em círculo, juntando novamente aquela energia fria, que desferiu na direção daqueles que restavam em volta de seus amigos. Um a um, as criaturas paralisaram, envoltas em uma camada de gelo.

     O velho, Rafiki, se juntou àqueles que para ele eram estranhos, ajudando-os no combate tão desvantajoso. Saltou no meio dos mordedores que ainda não haviam se juntado ao combate, golpeando o cajado no chão e pronunciando palavras antigas. O topo brilhante de seu cajado trovejou e de repente havia um manto de relâmpagos dançando em volta do velho, sibilando e lambendo o chão.
     Os mordedores que convergiram ao seu redor foram alvejados por raios elétricos e se debateram, terminando carbonizados. Com um giro do bastão, Rafiki golpeou outra criatura que se inclinava numa lápide para atacá-lo, e o relâmpago se enroscou no cajado explodindo o mordedor e levando-o ao chão.

   Golpeando, girando e golpeando. Com o machado firme nas mãos, Ugo derrubou mais três daqueles estranhos gnomos, enquanto Brianna abria caminho entre os restantes com seu escudo e os elfos nos seus calcanhares. Por fim, o último gnomo pereceu e puderam respirar.
   
     Estavam exaustos e haviam sido feridos algumas vezes pelos dentes afiados dos mordedores, por isso, decidiram voltar à hospedaria antes que anoitecesse, para comer, beber e discutir. Embora não conhecessem o velho, sua demonstração de altruísmo e impressionantes poderes foram o suficiente para que o convidassem a beber consigo - o que Rafiki prontamente aceitou, pois não sabia onde estava ou quanto tempo passara dormindo, e aquele grupo improvável podia dar-lhe respostas.
 
     Assim, saíram do cemitério, resgataram a recompensa por aquele massacre e - com moedas a tintilar nos bolsos - procuraram pelo bar mais próximo.

Considerações: Esse foi um post absurdamente longo, mas eu queria avançar um bocado com a história. Agora, Rafiki entra no grupo e a primeira carta se liberta. Tentei bastante para poder colocar a digníssima frase "preciso de luz aqui dentro", mas estou cansado de escrever e vou parar sem muitas considerações.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Resumo de Sessão #3 - Os Esgotos de Roarc

    Salve! Este é o terceiro resumo das sessões de campanha mais antigas, contando as aventuras e (mais recorrentes) desventuras do maior grupo de heróis desbravadores que Tellerian já viu.
    Os personagens são a elfa ladina Laurana (Julia), a senhorita discórdia, que sempre pensa em si mesma antes de qualquer coisa; o elfo monge Gadeus (Neto), o mais comedido do grupo, com a pior mão de todos (haja falha crítica); o bárbaro meio orc Ugo (Caio), que apesar de ser o louco do grupo, algumas vezes põe os óculos da sabedoria e vira o conselheiro; o feiticeiro meio anjo Kaly (Eddie), que tem um código dos heróis, mas sempre acha brecha pra fazer coisas erradas (os Deuses estão vendo); a paladina draconato Brianna (Marcela), que definitivamente deixaria você morrer só pra dar mais uma machadada no inimigo; e o arcanista  milenar Rafiki (Arthur), também conhecido por sua arte de tortura física e psicológica (você ainda tem dezoito dedos...).

   Na sessão anterior (embora talvez tenha sido na mesma sessão), vemos o acréscimo de mais dois personagens ao grupo: Kaly e Brianna. Após uma luta tremendamente desvantajosa contra uma horda de mortos vivos, o grupo encontra uma caverna, enfurece um orbe mágico e - após quase serem soterrados - voltam ao deserto, já durante o dia.

Capítulo 3: Os Esgotos de Roarc

   A trilha fria deixada por Azira tornava-se cada vez mais difícil de seguir e os aventureiros viram-se cada vez mais incertos quanto ao rumo que deveriam tomar na terra seca e infértil das terras baixas. Descobriram que Brianna estava viajando para o leste também, em busca de informações sobre a manopla antiga que seu protetor a havia encarregado de proteger. Após dias peregrinando, o grupo finalmente voltou a encontrar campos gramados e colinas, mas seus mantimentos já estavam tão escassos que a visão do verde pouco os animou.


   Nenhum deles tinha grande experiência como caçador e nem mesmo um arco curto tinham à disposição para acertar um dos pássaros que voavam sobre suas cabeças. Lebres se afastavam rápido demais para que as capturassem e nenhum reflexo de água era visto há dias.

   Neste ponto, a trilha de Azira tomou a direção norte. Ao longe, avistaram uma grande cidade. Diante da difícil decisão, preferiram rumar para a cidade, onde poderiam recuperar suas forças e conseguir algum dinheiro para comprar mantimentos antes de continuar a perseguição. Assim, no cair da tarde, o grupo de aventureiros ingressou nas ruas tortas e sujas de Roarc. 

   Após um jantar apressado, os aventureiros conversaram com alguns homens de negócios da cidade, vendendo seus serviços em troca de algumas moedas. Após a barganha, já no fim da noite, fecharam um contrato com um grande mercador da cidade. Alguém havia roubado uma peça de sua coleção, uma espada que lhe era muito querida. Seguira o rastro até onde pudera, mas o ladrão se evadira para o esgoto e ele não se atrevera a seguir, pois uma infestação de criaturas estranhas estava fazendo ninhos sob as ruas.

   Após uma reconfortante noite de sono e um café da manhã melhor do que tudo que haviam comido durante as últimas duas semanas, o grupo se preparou para a missão. Com poucas informações além do formato da espada, afiaram as lâminas e prepararam suas tochas e lamparinas.
 
  Descendo por uma escada estreita na periferia da cidade, o grupo chegou num túnel escuro e abafado. Embora chamado de esgoto, a grade de túneis subterrâneos era em sua maior parte um escoadouro, apenas uma parte menor realmente fluía com excrementos humanos.

   Rastros de passos se destacavam no chão úmido e logo puseram-se a caminho, enveredando por esquinas e longos túneis de pedra.  Numa encruzilhada, viram uma ponte enferrujada de metal, presa por correntes ao teto e balançando suavemente sobre um redemoinho metros abaixo, como um imenso ralo.
       Atrás deles, no escuro além do tremular de suas chamas, ouviram ruídos e passos. Os elfos, através da penumbra, enxergaram silhuetas pequenas e esguias saindo das paredes ou surgindo das esquinas mais distantes. Da escuridão, uma pedra assobiou no ar, atingindo Gadeus na face.
       Dos outros túneis, surgiu outra dúzia destas criaturas. Do tamanho e com a massa corporal de uma criança raquítica, tinham faces compridas e distorcidas. A pele era escura e áspera, com unhas compridas e olhos fundos e baços, quase negros. traziam pedaços de cano enferrujado e barras de aço retorcido nas mãos.
     Dividindo-se, o grupo partiu para a ação, antes que fossem completamente cercados. Com a agilidade da sua raça, os elfos correram sobre a ponte que balançava, dando combate às criaturas que vinham da frente; Ugo sacou um de seus machados, assim como Brianna tirou o seu, com tochas numa mão e machados na outra, os dois voltaram pelo túnel, combatendo os inimigos que vinham por trás. Atento para ambos os combates, Kaly permaneceu no centro, para dar suporte aos aliados à frente e atrás.
    
    Enquanto os dois guerreiros dilaceravam os inimigos com golpes de machado, Laurana dançava com facas entre meia dúzia daqueles monstros. Gadeus arremessou um dos adversários para o esgoto abaixo e Kaly esticou a mão, conjurando um disparo gelado de força arcana; as duas criaturas tocadas pelo raio paralisaram, recobertas por uma casca de gelo.
    No calor da batalha, Gadeus errou um de seus golpes, atingindo com toda a força uma das correntes que sustentavam a ponte. O som metálico ressoou pela câmara e toda a estrutura metálica pendeu para um dos lados. Laurana largou uma das facas que trazia à mão e saltou de lado, agarrando-se à barra da ponte. Com grande estrondo, outra das correntes estourou, desmoronando pedras e poeira sobre eles. Todas as criaturas restantes, desesperadas, rolaram pela grade enquanto a ponte balançava de um lado para o outro, presa ao teto por apenas duas correntes.

    Gadeus tentou, mas não conseguiu se segurar e mesmo com a tentativa de Laurana de salvá-lo, o monge seguiu os inimigos, caindo na água turbulenta abaixo. A força da correnteza o fez girar e girar, e apesar de seus esforços para permanecer na superfície, engolia mais e mais água. Estava prestes a perder a consciência, quando o menino anjo juntou todas as forças que lhe restavam para projetar um fluxo de energia fria e densa na direção da água.
   Guiando o jorro de poder com ambas as mãos, Kaly congelou toda a superfície, impedindo que Gadeus se afogasse. Tossindo e tremendo, o monge se puxou para cima do gelo, arrastando-se na direção do amigo. A camada de gelo tremia vigorosamente, na medida em que o redemoinho tentava romper a prisão congelada que o mantinha quieto.

    Velozmente, Ugo tirou a corda que trazia na bolsa, jogando-a para o elfo lá embaixo. Um segundo depois que Gadeus segurou a trança, o gelo se rompeu, mas Ugo e Brianna uniram-se para trazê-lo à segurança. O monge desmaiou, mas Kaly forçou sua consciência, curando-o, para que o elfo vomitasse toda a água que engolira. A este ponto, Laurana já tinha se equilibrado sobre a borda da ponte e voltado para o túnel do qual vieram.

    Sem ter como avançar, o grupo procurou outro caminho e vagou pelo que pareceram horas a fio, antes de encontrar uma câmara iluminada por lamparinas, na qual um homem velho e careca comia uma massa escura num pote de barro. Num canto, junto de outras peças de saque, jazia a espada que procuravam. Exigiram o item de volta, sacando as armas, mas o velho apenas riu uma com uma voz cacarejante.
    Das sombras atrás dele, três lagartos grandes como cavalos surgiram. Um fino e esguio, com patas compridas; um grande e musculoso, com imensos dentes à mostra; e um gordo e cambaleante, com papadas iguais a de um sapo.

    O combate foi difícil. Laurana saltou sobre o velho, mas foi interceptada pelo lagarto mordedor e derrubada no chão entre os três.
    Embora Kaly tenha congelado e estilhaçado o lagarto mais esguio assim que ele partiu sobre o grupo, a criatura semelhante a um sapo berrou um som agudo, que feriu os ouvidos de todos. Ugo, que estava bem diante dela, caiu, desacordado. As tochas jaziam no chão e, no escuro quase completo, os aventureiros não sabiam o que ocorria com Laurana.
    Gadeus saltou sobre o monstro, perfurando sua garganta com um soco poderoso, antes que ela pudesse gritar novamente. O velho sacara a espada, tentando golpear o monge pelas costas, mas Brianna bloqueou o golpe.
    O menino anjo curou o bárbaro que ergueu-se com a fúria nos olhos. Temendo que o meio orc atacasse os próprios companheiros, Kaly usou de toda a sua energia para curar novamente Ugo, de forma que este retomasse sua plena consciência.
    Enquanto isso, Laurana (com um azar desgraçado nos dados) era atacada outra e outra vez pelo lagarto que a agarrara. Sob a criatura, a elfa tentava se proteger, tomando dentadas e dentadas nos braços e ombros. Aos gritos e prantos, coberta do próprio sangue, a ladina sacou uma das facas, afastando a criatura de si com uma mão e degolando-a com a outra.
    Por fim, Ugo saltou sobre o cadáver da criatura que Gadeus derrubara, golpeando o velho no ombro com seu machado e partindo a carne do homem até o externo. Ensanguentados e atordoados, os companheiros recolheram o saque do velho, curando-se com o que restava na energia do meio anjo, antes de voltar à superfície.

   No estado em que estavam, só poderiam seguir atrás das recompensas no dia posterior. Por isso, encontraram a hospedaria mais próxima e, pagando o que lhes foi pedido, aceitaram as camas, ávidos por descanso.

   Considerações: Pois é... Talvez eu não tenha conseguido passar ao escrever, mas essa foi uma das sessões mais tensas que nós tivemos. Nessas horas de jogo, vimos os PJs quase morrerem MUITAS VEZES. Muitas, mas muitas mesmo. Afogados, mordidos, gritados, congelados, perfurados e etc...
    Foi AQUELA sessão, regada de lágrimas e com a Julia falando "meeeeeu irmãããão, a gente vai se fudeeeeeer" a cada cinco minutos. Enfim, um jogaço. Assim, os PJs começaram a sentir o ritmo de jogo e como é fácil perecer nas minhas mesas.
  

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Narrativa #1 - Os Juízes do Silêncio

    Salve, salve, salve! Esta narrativa conta fatos offgame, que os jogadores não fizeram parte - ao menos não diretamente. As narrativas como esta serão um modo de mostrar as pequenas e grandes mudanças que os jogadores causaram em Tellerian, para o bem ou para o mal.
    Os personagens são a elfa ladina Laurana (Julia), a senhorita discórdia, que sempre pensa em si mesma antes de qualquer coisa; o elfo monge Gadeus (Neto), o mais comedido do grupo, com a pior mão de todos (haja falha crítica); o bárbaro meio orc Ugo (Caio), que apesar de ser o louco do grupo, algumas vezes põe os óculos da sabedoria e vira o conselheiro; o feiticeiro meio anjo Kaly (Eddie), que tem um código dos heróis, mas sempre acha brecha pra fazer coisas erradas (os Deuses estão vendo); a paladina draconato Brianna (Marcela), que definitivamente deixaria você morrer só pra dar mais uma machadada no inimigo; e o arcanista  milenar Rafiki (Arthur), também conhecido por sua arte de tortura física e psicológica (você ainda tem dezoito dedos...).

Narrativa #1 - Os Juízes do Silêncio

    A sala estava cheia de pó escuro. Pedaços de vidro e hastes de metal jaziam por toda a parte. Várias poções haviam se derramado sobre as mesas e rolos de pergaminho agora se desfaziam na solução que borbulhava no chão.
  
   Parnacus não fora conhecido por seu autocontrole durante a vida. Agora, semivivo dentro daquele orbe, isto não mudara. Podia ver e ouvir o que se passava do outro lado do mar, no recôndito de cada floresta, mas não podia mover a si mesmo. Embora tivesse se tornado quase um deus, havia um preço. Sua consciência transcendente se perdia em devaneios frequentes e isso o assustava. A cada dia, temia deixar para trás aquilo que o individualizava, se mesclando à Vontade da natureza. Temia se perder em viagens astrais, incapaz de saber quem era ou de onde viera.

    O corpo do velho estava no chão. Descansava a cabeça numa poça do próprio sangue. Parnacus trespassara seu crânio com uma estalactite durante o acesso de fúria.
   Na penumbra verde, o espírito cristalizado do arquimago pensou e refletiu. Horas se passaram, dias. Para ele pareciam meses, anos, séculos. Após mergulhar na memória e na profunda consciência que adquirira, foi acometido por uma epifania, e o orbe brilhou com seu ímpeto.

    Como a serpente que rasteja para fora da toca, a consciência de Parnacus deslizou para fora da caverna e por sobre o deserto. Buscou longe entre as mentes fervilhantes de uma grande cidade, até encontrar quem procurava.

    Sethrakian, o juiz. Já em idade avançada, o homem tocava um bar, fachada para uma academia subterrânea, na qual ele treinava caçadores de monstros. Homens e mulheres motivados por sentimento de vingança contra criaturas noturnas; sentimento esse que Seth moldava para criar os melhores exterminadores que Tellerian pudera conhecer.
    Diferente dos paladinos, aqueles que Seth treinavam não se submetiam a deus algum. Não usavam da magia branca. Agiam como foras-da-lei, invadindo casas e castelos como gatunos, carregando lâminas escondidas, armas contrabandeadas de Khalifor e apetrechos mecânicos criados pelos povos orientais.

   - Seth... - chamou o Orbe e o velho parou de limpar a mesa que esfregava com vigor.

  - Você de novo, hein? Io non irei ser novamente capacho. - pensou Seth, respondendo ao arquimago.

  - Sabes que eu vejo a tudo, Sethrakian. Há algo que tu deves fazer por mim. - com sua magia, o orbe mostrou ao velho lampejos de memória, dando-lhe conhecimento do grupo que entrara em sua caverna e a carga tão preciosa que eles carregavam - Tens de tomar estas cartas de volta, homem velho. Ou ensinar a estes noviços como domá-las.

   - Já tenho mais discípulos do que quero. Dispenso.

   - Eles estão a combater o elfo escuro também.

   À menção daquele, o velho se empertigou. Olhando para sua bengala negra, cujo lobo de prata no topo o encarava, Seth pigarreou.

   - Então nossos caminhos hão de se cruzar.

   - Um deles irá se separar dos outros. Se não achá-lo antes, o outro vai tomar para si uma das cartas.

   - Basta. Leva essa tua voz irritante para outro lugar, tenho coisas para cuidar.

   Tão logo a presença de Parnacus se desfez, Seth sentou na cadeira atrás do balcão. Agarrando o topo da bengala com firmeza, girou o lobo no próprio eixo e o objeto estalou. Lentamente, puxou a lâmina que trazia escondida dentro do bastão escuro.

   - Kisara! - chamou ele. 

  Uma garota de cabelos castanhos e curtos surgiu de uma porta atrás dele. Trazia uma boina verde na cabeça e vestia um casaco de couro marrom.

  - Sim, Seth?

  - Pegue suas coisas e chame os outros juízes.

  - Todos?

  - Se eu mandei chamar os outros, é porque são todos, garota tola. Sim, todos. Nós estamos saindo em missão.

  - E como fica o bar?

  - Esqueça o bar, garota! Há coisas mais importantes com as quais nós devemos nos preocupar.